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A Netflix está a matar as noites de sexo?

Do sofá para o divã dos especialistas, as queixas sobre a falta de sexo à custa do tempo passado nos ecrãs têm ganhado força. A culpa, muitas vezes, estás nas maratonas de episódios.

Episódio atrás de episódio, temporada atrás de temporada. Certamente tem uma história destas para contar aos amigos. Como se, ao fazê-lo, se gabasse de um grande feito. Mas, quando se dedica tanto tempo aos ecrãs, mesmo que acompanhado pela cara metade, há outras coisas que ficam para trás. No sofá, o entretenimento passa a ser só visual.

“Com isso, as outras maratonas ficam para trás”, diz a sexóloga Marta Crawford. Há muito que as queixas de falta de sexo por demasiado tempo dedicado aos televisores se sentam com os clientes no seu consultório. E, a cada ano, os lamentos tornam-se mais recorrentes. “Até houve uma altura em que não era ‘cool’ ter televisão no quarto, mas entraram todas as outras modalidades de ecrãs.

Os casais quando se deitam, estão com muita gente na cama”. Na cama ou no sofá, houve um tempo em que a expressão “Netflix and Chill” era mais marota, uma autêntica dica para sexo casual entre os mais jovens. Mas, o “chill” parece ter mesmo esfriado e é agora mero relaxamento. Mais conteúdo para ver obriga a mudar hábitos antigos.

Júlio Machado Vaz, psiquiatra e sexólogo, confirma que a preocupação com o tema é crescente. “Uma coisa que tem vindo a surgir são as verdadeiras maratonas de episódios. Há a ideia de que, em princípio, ao fim de semana temos mais tempo uns para outros. Ouço pessoas que me dizem com um sorriso que viram três temporadas de determinada série. E a pessoa esteve ali em detrimento de tudo o resto. Às vezes, dizem que é magnífico”.

E, noutras vezes, é só o inicio de uma espiral sem retorno para a relação, mesmo que o casal esteja junto a assistir a cada episódio. “Isto compromete em geral a vida erótica. Depois espalha-se para toda a comunicação do casal”, resume Júlio Machado Vaz.

Numa fase inicial da relação, ver séries até pode fazer parte do jogo de conquista. Com os corpos juntos, debaixo do calor da manta. Mas, com o passar do tempo e conforto, a coisa pode mudar. “Às vezes os casais estão juntos, mas a ver séries diferentes”, cada um no seu tablet, resume Marta Crawford.

Em cada relação, há ritmos diferentes. E, nas heterossexuais, as mulheres tendem a ir para a cama mais cedo do que os homens. Daí que as queixas delas sejam mais frequentes nos consultórios dos especialistas. “É cada vez mais raro deitarmo-nos à mesma hora, o que complica a vida erótica”, diz Júlio Machado Vaz.

E, com as maratonas, mesmo que cheguem juntos à cama, já o fazem tarde – e sem energia. O prazer de chegar ao fim do episódio é mais envolvente que o prazer da carne. E, mesmo na manhã seguinte, haverá um a sair da cama mais cedo do que o outro.

Ao longo dos últimos anos, a ciência tem colocado a questão: estão os ecrãs a matar o desejo sexual dos casais? Um dos estudos mais citados pela imprensa, de 2018, feito pela Universidade de Lancaster, revela que a hora de maior consumo de internet é entre as 22:00 e as 23:00, à custa da ascensão dos serviços de “streaming”. Um horário em que, outrora, se propiciava a prática sexual.

Já um estudo da Faculdade de Psicologia e de Ciência das Educação da Universidade do Porto revelou que, desde o inicio da pandemia, 47% dos inquiridos fizeram menos sexo e que 40% admitiram uma diminuição da satisfação sexual. Números de um período em que os portugueses estiveram mais tempo em casa, muitos sem saber bem o que fazer.

CNN Portugal

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