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“Viemos das matas e já temos casas, e os da [cidade] não”

O deputado Adriano Abel Sapiñala tornou-se uma das figuras mais comentadas nas redes sociais angolanas nos últimos dias, na sequência da circulação de alegadas declarações suas consideradas ofensivas por vários internautas. A polémica ganhou maior projecção após uma publicação da página de Facebook Elite Post, feita na noite de segunda-feira, 5 de Janeiro.

Segundo comentários amplamente partilhados no Facebook e no WhatsApp, o secretário provincial da UNITA em Luanda teria afirmado que os quadros do seu partido, que estiveram nas matas durante a guerra, conseguiram estudar e construir casas próprias, ao contrário de muitos angolanos que sempre viveram nas cidades e que, até hoje, continuam em casas arrendadas.

“Adriano Sapiñala insultou-nos”, lê-se em várias reacções nas redes sociais, onde se acusa o parlamentar de ter assumido um tom presunçoso e depreciativo em relação aos cidadãos urbanos que não alcançaram estabilidade habitacional ou académica.

Enquanto alguns utilizadores criticam duramente o deputado, outros apelam aos órgãos de comunicação social para que clarifiquem o contexto das declarações e confirmem se estas foram, de facto, proferidas nos termos em que têm sido divulgadas.

A controvérsia não é recente, mas voltou a ganhar força nos últimos dias. Dirigentes e militantes do MPLA consideram que as palavras de Sapiñala constituem uma ofensa generalizada aos angolanos que não pertencem à UNITA. Já militantes do partido do “galo negro” defendem que o deputado se referia exclusivamente a quadros do MPLA, sobretudo às bases.

Celso Malavoloneke, membro do Comité Central do MPLA, reagiu às alegadas declarações questionando como alguém não conseguiria ter casa ou viatura depois das “avultadas somas” recebidas pela UNITA em 2002, bem como das casas e outros benefícios atribuídos no âmbito da Assembleia Nacional.

“Lembro que o mano Adriano Abel Sapiñala veio convidado ao aniversário da minha filha, em Julho de 2010 (…). Já então conduzia um VX que eu, depois de 15 anos de trabalho nas Nações Unidas e sendo director de uma agência de comunicação, nem sonhava ter. Ele já vivia no Talatona, na casa do pai. Depois recebeu uma casa no Kilamba, que, creio, mantém até hoje. Esse foi o preço que o povo pagou pela paz e reconciliação. Abusar agora desse mesmo povo é o cúmulo da ingratidão”, escreveu Malavoloneke.

Para além de políticos, alguns activistas também criticaram o dirigente da UNITA, acusando o partido de alimentar a “farsa de que apenas os militantes do MPLA beneficiam da riqueza do país”.

Mas Adriano Sapiñala proferiu ou não estas palavras?

As declarações foram feitas durante uma intervenção no Jango Cultural, no Huambo, em finais de 2025. Contudo, de acordo com o contexto, o objectivo não terá sido o de ofender, mas o de sublinhar que os quadros da UNITA possuem já condições próprias de vida e não dependeriam de benefícios estatais caso chegassem ao poder.

“Essa história de que, se a UNITA ganhar, vai receber as casas dos do MPLA, esqueçam isso. Vou dizer mais, e ninguém leve a mal: muitos que não estavam nas matas estão, se calhar, mais desorganizados do que nós que viemos das matas. Nós já chegámos, já estudámos, já nos licenciámos, já construímos as nossas casas, já temos os nossos carros, mas há quem ainda esteja no ‘viva, viva, viva’ e continue até hoje na renda. Não tenham dúvidas sobre a nossa capacidade”, afirmou Sapiñala, perante uma plateia que reagiu com aplausos.

O deputado acrescentou ainda que “muitos dirigentes do MPLA só foram para as universidades quando viram que os generais e dirigentes da UNITA também lá estavam”, referindo que essa dinâmica se intensificou a partir de 2002.

“Quando dizemos que temos uma ideia para o país, não é vaidade. É um assunto sério”, concluiu.

Polígrafo África

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