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Telemóvel de jornalista angolano infectado com o spyware Predator

Teixeira Cândido, um jornalista e jurista, foi identificado pelo Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional como a primeira vítima conhecida do Predator em Angola. A infeção por este software espião ocorreu em maio de 2024, quando Cândido estava a terminar nove anos de mandato à frente do Sindicato dos Jornalistas Angolanos. O sindicato foi fundado em 1992 e em 2024 tinha três mil membros.

“Depois que soube da infeção do meu telefone, sinto-me literalmente como se estivesse a tomar banho com a porta aberta”, confessa Teixeira Cândido ao Expresso. “Não sei qual é a consequência dessa infeção nem o que terão retirado do telemóvel. Mas também não posso dizer que me sinta em segurança.”

Uma vez instalado no telemóvel, o Predator tem acesso ao conteúdo de todas as aplicações de mensagens encriptadas, incluindo o WhatsApp e o Signal, aos e-mails, às gravações de áudio, aos vídeos e fotografias, às palavras-chave armazenadas, ao registo de chamadas, a todos os contactos e à geolocalização do dispositivo. Além disso, pode ativar a câmara e o microfone sem ser notado, transformando o telemóvel num aparelho de escuta e videovigilância para o cliente que o adquiriu à Intellexa, o consórcio europeu que desenvolve e produz este software.

Antes da espionagem do telemóvel de Teixeira Cândido, havia já sinais de que ele e outros jornalistas estavam a ser alvo de ataques que envolviam o acesso ilegitímo a informação.

Em 2022, o sindicato participou como observador nas eleições presidenciais que renovaram o mandato de João Lourenço, produzindo um relatório crítico. “Entendemos que as eleições em Angola não tinham sido livres nem justas”, recorda Cândido. “Não tinham sido livres porque não soubemos, por exemplo, como foram apurados os resultados. E não tinham sido justas na medida em que o partido do poder dispunha de todos os órgãos de comunicação social públicos e do tempo que quisesse. Escrevemos para a Comissão Nacional Eleitoral a denunciar exatamente esta prática.”

Nessa época, o escritório do sindicato acabou por ser assaltado três vezes em três meses. “Não houve vestígios de arrombamento de portas e levaram apenas computadores do sindicato”, conta o antigo líder sindical. “Esta situação coincidiu com o facto de ter havido assaltos a residências de jornalistas, incluindo o João Armando, diretor do jornal de economia Expansão, e a Raquel Rio, correspondente e delegada da Agência Lusa em Angola. Também lhes levaram computadores.”

Cândido revela que chegou a receber uma mensagem anónima, que interpretou como uma ameaça. “Perguntavam se eu tinha visto o que eles estavam a fazer.” Como reação, no final de 2022, o sindicato organizou uma marcha de protesto. “Nós, jornalistas angolanos, fomos para a rua pela primeira vez para nos manifestarmos contra essa ameaça à liberdade de imprensa”.

Numa entrevista ao jornal “O País” em junho de 2024, quando estava de saída do sindicato, Teixeira Cândido lamentava que tivesse havido “mais liberdade de imprensa nos finais da década de 90 do que nos dias de hoje”, referindo-se ao desaparecimento de uma série de media privados na última década. “O Estado tem mais de 45 canais de rádio e continua a ser a única entidade com jornal diário. O desaparecimento dos órgãos privados dirigidos por jornalistas demonstra um retrocesso visível da liberdade de imprensa em Angola”, explicou então. “Sem desprimor dos profissionais destes órgãos, a verdade é que grande parte deles é controlada pelo poder político, são órgãos cujos patrões são pessoas do governo ou com fortes ligações ao aparelho do Estado e, quer queiramos, quer não, acabam intervindo naquilo que é o tipo de jornalismo que estes órgãos vão fazendo.”

Agora, mantém a mesma opinião crítica. “O maior problema que se coloca é que todos esses órgãos falam a mesma coisa. O alinhamento é coincidente. E, desse ponto de vista, o país assistiu a um enorme retrocesso no pluralismo da informação.”

Com a notícia sobre a infeção do Predator, Cândido admite que passou a pensar duas vezes antes de partilhar seja o que for por telemóvel. E preocupa-o não só a sua segurança, mas também a dos seus colegas de profissão. “Não sei o que pretendiam com essa infeção; que conteúdo é que lhes poderia interessar? Mas quero viver cada dia na expectativa de que nada nos vai acontecer.”

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