Sarah Maldoror, cineasta da libertação das ex colónias portuguesas de África


A francesa Sarah Moldoror faleceu neste domingo perto de Paris. A realizadora tinha 90 anos e faleceu com Covid-19 após uma longa carreira no cinema muito assente nos movimentos de libertação em África. Angola, Cabo Verde, e Guiné-Bissau foram países em que ela se ilustrou. 

Uma das suas obras mais emblemáticas foi "Sambizanga", longa metragem que retratava em 1972 a guerra pela libertação de Angola, uma adaptação da obra de José Luandino Vieira "A Vida Verdadeira de Domingos Xavier".

O filme é um drama político tendo como palco 1961, e o início da guerra em prol da independência de Angola, com financiamento francês, seleccionado para a Quinzena dos realizadores de Cannes, à revelia, obviamente, do governo colonial de Lisboa.

O seu percurso pessoal e profissional passou pela relação que manteve com Mário Pinto de Andrade, poeta e político angolano, fundador e primeiro presidente do MPLA, Movimento popular de libertação de Angola, com o qual teve duas filhas.

A luta contra o colonialismo português levá-la-á também à Guiné-Bissau com o projecto "Des fusils pour Banta", em 1970, ou ainda "Carnaval na Guiné-Bissau", já depois da indendência, em 1980.

Um terreno que praticou ao lado do realizador guineense Sana Na N'Hada. Este conheceu-a em 1973 e viria, mesmo, a acompanhá-la em projectos a Cabo Verde em torno do vulcão da Ilha do Fogo ("Fogo, l'ile de feu") ou sobre o Carnaval ("Cap-Vert: un Carnaval dans le Sahel").

Sarah Ducados nasceu no Sudoeste da França em Condom, no Gers, em 1929 de mãe francesa e de pai da ilha ultramarina da Guadalupe.

Cresce em Toulouse, apaixona-se pelo teatro, adopta o nome de Maldoror em homenagem ao escritor Comte de Lautréamont, autor de "Les Chants de Maldoror".

Em 1956 com a cantora do Haiti Toto Bissainthe e os músicos Timité Bassori, da Costa do Marfim, e Ababacar Samb, do Senegal, criou um grupo "Les Griots", uma companhia de arte dramática africana. O seu contacto em Paris com os líderes anti-coloniais será determinante na sua obra.

Depois de ter estudado cinema em Moscovo graças a uma bolsa de estudo opta por despertar consciências para a libertação em África através do cinema, ao ponto de se juntar aos guerrilheiros do PAIGC, Partido africano para a independência da Guiné e Cabo Verde, nas zonas libertadas da então Guiné portuguesa.

"Monagambé" descreve, por seu lado, começou por descrever, logo em 1969, a tortura na Argélia, território que acabou por se libertar da França, após uma guerra.

RFI