Pwc afasta sócios envolvidos com Isabel dos Santos


PricewaterhouseCoopers (PwC) prometeu que ia investigar a fundo o envolvimento dos sócios portugueses com os negócios sob suspeita de Isabel dos Santos e que isso iria ter consequências. Está a cumprir. O relatório de investigação interna, em que o presidente da PwC mundial, Bob Mortiz, acabou por se envolver pessoalmente, vindo a Lisboa, está concluído e já foram identificados os sócios do escritório português que estiveram implicados: Jaime Esteves e Ivo Faria. Sócios com décadas de casa, estão ambos suspensos e já começaram a negociar a sua saída da big four, um processo que foi conduzido pela casa mãe, que enviou a Portugal um quadro norte-americano para coordenar a investigação.

 

Entraram ambos na PwC através dos escritórios do Porto, onde a auditora tem grande força, e foi a partir da Invicta que os laços com a investidora angolana se estreitaram. Mário Leite da Silva, o homem forte de Isabel dos Santos e o seu braço-direito em vários negócios, deu os primeiros passos da sua carreira profissional na PwC e foi lá que foi buscar os especialistas de auditoria e consultoria a quem recorria na assessoria a vários negócios.

 

Ivo Faria, na PwC desde 1997, era o responsável pelo cliente Isabel dos Santos, um dossiê que geria com as pinças que uma pessoa exposta politicamente como a filha do antigo Presidente de Angola implicava. Jaime Esteves era o líder do departamento fiscal da auditora, peça chave numa área crucial para a gestão da fortuna da investidora angolana, primogénita de José Eduardo dos Santos, onde o recurso a offshores usando múltiplos escritórios da PwC espalhados pelo mundo ia acontecendo, também com a sua intervenção. Esteves já estava afastado da liderança do departamento fiscal da PwC, o que aconteceu uma semana depois das primeiras revelações do Luanda Leaks pelo consórcio internacional de jornalistas do qual fazem parte o Expresso e a SIC. Há três décadas na auditora, Jaime Esteves é um dos rostos mais mediáticos da PwC.

 

GERIR COM SECRETISMO

 

Ivo Faria também já percorre os corredores da auditora há mais de 20 anos e tinha o protagonismo de ter sob a sua batuta uma cliente que se tinha notabilizado nos últimos anos e era importante para o escritório. Isabel dos Santos era dona da Efacec, acionista da Galp, da NOS e do EuroBic. Foi o sócio da auditora que mais trabalhou com Mário Silva, de quem era conhecido de longa data. Tudo o que dizia respeito aos negócios da filha de Eduar­do dos Santos passava por Ivo Faria. Era este sócio, chefe nacional do escutismo católico, quem escolhia a equipa e fazia uma gestão “férrea envolta em secretismo” dos dossiês e da informação à volta da empresária, contou ao Expresso fonte da auditora.

 

Foi à PwC Angola que Mário Silva, presidente da Santoro Financial, quartel-general para os negócios da investidora angolana em Portugal, foi buscar Sarju Raikundalia para administrador financeiro da Sonangol. Foi Raikundalia, também ele arguido neste caso, quem, segundo as investigações do Luanda Leaks, deu a ordem de transferência de 38 milhões de dólares da conta da petrolífera no EuroBic para uma empresa de consultoria ligada a Isabel dos Santos.

 

As conclusões do relatório chegam pouco mais de dois meses depois de ter rebentado o caso Luanda Leaks e de em Angola, umas semanas antes, em dezembro de 2019, terem sido arrestadas participações em empresas e contas de Isabel dos Santos, com o Estado angolano a acusá-la de ter desviado mais de 1,2 mil milhões de dólares de dinheiro público. O relatório causou desconforto nos escritórios da PwC em Portugal.

 

A auditoria tinha-se tornado uma poderosa aliada de Isabel dos Santos, que a foi buscar para ajudar a reestruturar a Sonangol quando, em 2016, nomeada pelo seu pai, passa a liderar os destinos da petrolífera angolana. Solange foi o nome dado na PwC ao projeto de reestruturação da Sonangol, cujos detalhes da contratação muito poucos conheciam.

 

A PwC foi substituir a concorrente KPMG como auditora da Sonangol. A ligação era mais lata, e a PwC trabalhou também com empresas onde Isabel dos Santos era acionista, como o Banco de Fomento Angola. Chegou a auditar a operadora móvel Unitel e a assessorar as cimenteiras Cimangola e Ciminvest ou a rede de supermercados Candando.

 

O tema Isabel dos Santos ganhou grande relevância dentro da PwC internacional. Afinal, a investidora angolana era considerada pela “Forbes” a mulher mais rica de África e movia-se bem em alguns meios internacionais — era convidada e patrocinadora, via Unitel, de Davos.

 

Nos primeiros dias de fevereiro, Bob Moritz, como noticiou o Expresso, veio a Lisboa tomar o pulso à situação. Quis inteirar-se no terreno de que forma a reputação da auditora tinha ficado manchada. A sua vinda a Lisboa, o que nunca tinha acontecido, era também um sinal da casa mãe de que o assunto não era para morrer na praia. As regras da PwC tinham sido desrespeitadas, já que os serviços devem ser pagos por quem os recebe, e não foi a Sonangol que pagou à auditora, mas as empresas sediadas em Malta e no Dubai, o que não poderia ser deixado em branco.

 

A PwC foi a primeira grande consultora a cortar laços com Isabel dos Santos e a dizer que não voltaria a trabalhar com empresas do universo da família da antiga ‘princesa’ de Angola. Com o afastamento dos dois sócios portugueses, informação que o escritório português não confirma nem comenta, a PwC espera ter enterrado o assunto de vez.


Expresso