Porquê desacreditar Adalberto Costa Júnior?


Por: Maurílio Luiele*

ACJ foi eleito Presidente da UNITA contra todas as expectativas da sociedade política angolana que erroneamente construiu uma imagem tribal da UNITA, fruto de anos a fio de propaganda negativa. Mesmo no interior da UNITA eram muitos os militantes cépticos quanto a possibilidade de uma figura com o perfil de ACJ ser alcandorada à liderança desta força política nacional.

A onda ACJ ergueu-se inicialmente fora da UNITA, fruto do desempenho pessoal deste intrépido actor político que soube capitalizar ao máximo um palco menosprezado na política angolana que é o Parlamento. ACJ combinou com perfeição o capital acumulado na Missão Externa, com reiteradas aparições na mídia internacional, com o seu desempenho como líder parlamentar para construir uma notável popularidade que o colocou como uma referência entre as lideranças políticas angolanas. É com este activo político que ACJ se apresentou como candidato a Presidente da UNITA e fez deslocar a onda ACJ para o interior da UNITA.

Como a massa militante da UNITA, ao contrário do que se propala, não é um corpo estranho a sociedade, mas uma parte indissociável desta, com a qual comunga dramas, alegrias e frustrações, foi imediatamente contagiada pela onda popular e agigantou a campanha ACJ, deixando para trás outros 4 candidatos. É assim que 60% dos 1 150 delegados ao XIII Congresso da UNITA, interpretando os sinais emitidos pela onda popular ACJ elegeram Adalberto Costa Júnior como terceiro Presidente da UNITA.

A eleição de ACJ como Presidente da UNITA surpreendeu o MPLA e a popularidade que granjeou e que permitiu a sua eleição tornou-o uma liderança forte e, por conseguinte, uma forte ameaça ao poder. É neste esteio que se situam as razões da presente campanha que visa desacreditar e desmoralizar ACJ, com vista a tornar justificáveis os efeitos escabrosos da estratégia acima enunciada.

A campanha que neste momento parece revestir a forma de um confronto pessoal entre Adalberto Costa Júnior e o controverso jornalista Carlos Alberto (CA) é, na verdade, uma componente importante da estratégia que aludimos anteriormente. Neste sentido, CA é apenas um peão neste tabuleiro onde figuram peças, porventura mais importantes, servindo, as peças menores apenas para livrar o rei do xeque-mate. Está mais do que evidente que o operador desta peça da estratégia é o Gabinete da Acção Psicológica (GAP) para onde Norberto Garcia (NG) foi chamado a comandar. Figura comprovadamente desprovida de escrúpulos quando se trata de privilegiar o interesse particular em detrimento do bem comum, a sua regeneração política não é de forma alguma ingênua e reflete a baixeza e imoralidade que a caracteriza que só pode ser assumida por sujeitos sem escrúpulos por trás dos quais se escondem as faces que delinearam e conduzem a estratégia.

Na estratégia que visa a redução da influência das lideranças emergentes da oposição está também evidente o papel reservado à comunicação social. A peça inserida em horário nobre da programação da TV Zimbo em que CA aparece destilando fel contra ACJ é um ponto bem fora da curva na linha editorial que aquela Estação Emissora vinha exibindo, o que só se explica com a inserção deste órgão como parte da estratégia que vimos aludindo. A peça é ainda mais esdrúxula se considerarmos que envolve como protagonista um membro da ERCA a quem cabia “garantir que os conteúdos difundidos pelos meios de comunicação social se pautem por critérios rigorosos que correspondam as boas práticas do jornalismo” (Art. 3º, d), Lei 2/17). Ao permitir-se tamanho desvio da sua linha editorial, para incluir uma peça afastada das “boas práticas do jornalismo” a TV Zimbo não só destapou um véu na sua mascarada isenção como contribuiu para a completa desqualificação de Carlos Alberto como conselheiro da Entidade Reguladora da Comunicação Social Angolana. A situação é ainda mais temerária se associarmos a ela a visibilidade que a Estação de Talatona procura dar ao novo Director do GAP, levantando fortes suspeitas de que a TV Zimbo é um veículo privilegiado da estratégia daquele órgão sinistro que funciona junto do Titular do Poder Executivo. H,á de resto, outros episódios ocorridos nos últimos dias que sugerem um alinhamento da TV Zimbo com alguma estratégia obscura.

Em última instância a estratégia que aqui procuramos desmontar visa perpetuar um sistema que entrava o desenvolvimento do país e impede o aprofundamento da democracia cuja mola impulsionadora passa inequivocamente pela alternância. Nenhum sistema democrático funciona em pleno se não tiver na alternância o mecanismo para desconstruir vícios autoritários que ameaçam o pluralismo e a diversidade que constituem o verdadeiro oxigénio da democracia. O assassinato de reputação de lideranças emergentes na oposição é uma arma poderosa de que se servem as forças de bloqueio à efectiva democratização do país, mas ela é reforçada por um discurso sub-reptício que procura desqualificar a oposição como alternativa ao poder instituído, evocando uma suposta falta de ideias para construir soluções alternativas, o que é absolutamente falso. Quando este discurso é veiculado por reputados “opinion makers”, o discurso se torna num autêntico colírio para os olhos destas forças de bloqueio e estes líderes de opinião se tornam consciente ou inconscientemente fortes aliados destas forças. Desta forma as estratégias de eternização no poder encontram terreno e, de eleição em eleição, lá propõem agendas votadas a priori ao fracasso que conseguem apenas emperrar o desenvolvimento do país, aprofundando desigualdades e assimetrias regionais.

Se quisermos efectivamente sair desta armadilha teremos que ser capazes de travar com inteligência esta macabra estratégia, recorrendo a todas as capacidades políticas disponíveis e, desta forma proporcionar uma oportunidade a alternância. Só a alternância propiciará o ambiente democrático adequado ao debate conducente a construção de uma agenda de consenso de longo prazo que coloque o angolano no centro das atenções, desarticule os bloqueios actuais que enfermam o aparelho de Estado colocando-o de facto ao serviço do cidadão. Só assim será possível recolocar o país na senda do desenvolvimento.

* Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto. Mestre em Biociências pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Docente de Bioquímica na Faculdade de Medicina da UAN desde 1986. Deputado à Assembleia Nacional pela UNITA desde 2017.