O legado do Mundial de 2010 na África do Sul


Uma década depois da África do Sul ter organizado o Campeonato do Mundo de Futebol, o país não guarda um bom legado da competição. Desde então, nunca mais se qualificou para um Mundial e alguns estádios foram deixados ao abandono.

Em 2010, 80 anos depois da primeira edição da competição no Uruguai, o Campeonato do Mundo chegava finalmente ao continente africano. A África do Sul foi escolhida como organizadora da maior competição de seleções de futebol do mundo.

O Estádio FNB, em Johannesburg, encheu para ver jogar a anfitriã frente ao México. Aos 55 minutos de jogo, Siphiwe Tshabalala inaugurava o marcador com um pontapé certeiro, que levou o público ao delírio e as vuvuzelas a ecoarem com estrondo pela arena. Para desilusão dos sul-africanos, Rafa Márquez empatou a partida aos 79 minutos.

A ideia de organizar um Mundial em África sempre fez parte da visão do então presidente da FIFA, Sepp Blatter. No entanto, como escreve a Sports Illustrated, embora seja uma iniciativa nobre, pode-se argumentar que Blatter sonhava com um Campeonato do Mundo em África porque o bloco africano da FIFA sustentava o seu poder na organização que tutela o futebol mundial.

Aliás, já em 2006, Blatter quis que o Mundial fosse organizado na África do Sul, mas a Alemanha acabou por ser escolhida como a sede dessa edição.

Não obstante, o sonho sul-africano chegaria quatro anos depois. A organização de um evento destas dimensões envolve sempre gastos megalómanos em infraestruturas, principalmente se for o caso de um país que não esteja preparado. Portugal pode sentir empatia com a situação dos sul-africanos, basta olhar para os investimentos que foram feitos para receber o Euro 2004.

Para o Mundial de 2010, foram construídos novos estádios em cidades onde um estádio pré-existente poderia ter sido remodelado e modernizado. Apenas três anos depois, quando o país recebeu a Taça das Nações Africanas, já se constatava facilmente quantos destes estádios tinham caído em desuso.

As instalações para a imprensa no Estádio FNB, conhecido como Soccer City, desapareceram. O relvado em Nelspruit foi devastado por uma infeção de fungos. Na Cidade do Cabo, o Estádio Green Point perdia um milhão de dólares por ano e, de acordo com a Sports Illustrated, havia rumores de que seria convertido em habitação.

No entanto, receber uma competição deste calibre traz também alguns frutos a nível desportivo, principalmente para os países em que o futebol ainda não está tão desenvolvido. Para tal, basta olhar para o exemplo da Coreia do Sul e do Japão, que organizaram o Mundial de 2002 e que, desde então, tornaram-se presenças habituais na competição.

Por sua vez, a África do Sul não se qualifica para o Campeonato do Mundo desde 2010. E, para piorar a situação, falhou também a Taça das Nações Africanas em 2012 e 2017.

Além disso, a África do Sul tornou-se o primeiro país organizador a não passar a fase de grupos. Os ‘bafana bafana’ ficaram no terceiro lugar do grupo, atrás do Uruguai e do México. Curiosamente, a França ficou em último do grupo, com apenas um ponto.

A primeira edição de um Mundial em África deixou um fraco legado. Pobreza, corrupção, intrigas políticas e desorganização continuam a reinar no continente africano. E a esperança de ver um campeão mundial oriundo de África é cada vez mais diminuta.