O africano salvador de bebés que lidera a OMS


Numa altura em que os países fecham fronteiras e os líderes pensam sobretudo em como proteger cada um as suas populações do Covid-19, há um homem que tem por missão garantir que o mundo continua a comunicar entre si, os cientistas a cooperar na investigação e os governantes a partilhar informação sobre a pandemia: chama-se Tedros Adhanom Ghebreyesus, é etíope e desde 2017 dirige a Organização Mundial de Saúde (OMS).

"A nossa principal mensagem é: testem, testem, testem", declarou esta semana Tedros, como é conhecido este africano de 55 anos, casado e pai de cinco filhos. "Não se pode combater um fogo de olhos vendados", acrescentou em Genebra, sede da OMS, uma agência das Nações fundada em 1948 e talvez a que mais eficácia revela em termos de cooperação internacional, basta pensar no sucesso no combate a doenças como a poliomielite, quase erradicada depois de vacinação das selvas africanas até aos Himalaias.

Se o currículo impecável de Tedros contar, e devia, há razões para ter otimismo no combate global a este novo coronavírus, cujos primeiros casos terão surgido na China em novembro mas que agora atinge mais de uma centena de países, com a Europa a apresentar de momento as situações mais graves. É que desde que entrou ao serviço do ministério etíope da Saúde, em 1986, com 21 anos, sempre se destacou nos resultados positivos obtidos, fosse a nível regional no combate à malária (doença em que é especialista) fosse já a nível nacional no esforço de redução da mortalidade infantil.

A história pessoal de Tedros confunde-se muito com a da Etiópia, a par da Libéria o único país africano que nunca foi colonizado (apesar da ocupação italiana nos tempos de Mussolini). Este que é o primeiro africano à frente da OMS, nasceu em 1965 em Asmara, capital da então província da Eritreia, três anos antes integrada na Etiópia, na época liderada pelo imperador Hailé Sellassié. Estudou na universidade local onde se formou em biologia, e mais tarde fez mestrado e doutoramento em universidades britânicas em imunologia e medicina comunitária. Em 1991 viu o regime comunista de Mengistu, que derrubara a monarquia em 1974, cair também e dois anos depois a Eritreia conquistar a independência. Como a sua etnia é a tigrinya, uma das principais da Etiópia, foi na região de origem familiar, o Tigray, que foi fazendo carreira, chegando a ministro da Saúde. Apesar das dificuldades, sobretudo escassez de meios e de pessoal formado, consegui melhorar vários índices regionais.

Detetado como um grande valor pelo governo de Meles Zenawi, foi chamado a Adis Abeba. E de 2005 a 2012 foi ministro da Saúde, novamente com resultados excelentes num país que conta com 107 milhões de habitantes (mortalidade infantil baixou de 110 por mil para 74 por mil nesse período, agora é de 55 por mil). O país pediu-lhe entretanto que fosse ministro dos Negócios Estrangeiros, tornando-se o rosto da Etiópia no exterior, o que lhe terá feito ganhar apoios para a eleição em 2017 para diretor-geral da OMS, que desde 2006 era liderada pelo sino-canadiana Margaret Chan.

Cristão como dois terços dos etíopes (no século XVI, a Etiópia cristã foi uma grande aliada de Portugal no Corno de África e no Índico), Tedros um dia manifestou-se surpreendido pela polémica em ter usado a expressão islâmica Inchallah, ou Se Deus Quiser em árabe, origem também do português oxalá. E no Facebook explicou que em Asmara tinha crescido junto de famílias muçulmanas que sempre lhe pareceram pessoas de paz e que nunca o discriminaram por ser cristão-ortodoxo. E depois ao longo da vida nunca sentira que o islão não fosse uma religião de paz. E que se orgulhava de ser etíope, uma nação plural, de matriz cristã mas com numerosos muçulmanos.

Juntamente com o atual primeiro-ministro Abyi Ahmed, Nobel da Paz em 2019 por ter feito a paz com a Eritreia, e a presidente Sahle Work-Zwede, ex-subsecretária-geral da ONU com António Guterres, Tedros faz parte do trio de etíopes mais destacados internacionalmente e é de imaginar que venha a ter futuro político no seu país, sobretudo se a democratização avançar. Para já, a sua prioridade absoluta é derrotar o Covid-19, que na sua Pátria, vai ainda em cinco casos, mas como se viu na China e na Europa tenderá a explodir e a desafiar um sistema de saúde frágil.

DN