Desta vez Angola não está só


Simon Quijano-Evans |*

Angola está novamente a enfrentar grandes desafios económicos, mas, desta vez, não está sozinha. As economias europeias e americanas foram fortemente atingidas pelo coronavírus e os Governos estão ainda a começar a perceber quais as políticas económicas a adoptar.

Para colocar isto em perspetiva, um membro da Reserva Federal dos EUA já referiu a possibilidade de o PIB norte-americano cair 50% no segundo trimestre e a taxa de desemprego disparar para os 30%, ambos números enormes.
O FMI deixou bem claro que está pronto para usar o seu poder de fogo de 1 trilião de dólares para apoiar os países membros e parece que a comunidade internacional poderá fornecer mais capital se for necessário. Enquanto alguns países mais desenvolvidos, como por exemplo a Itália, estão obviamente na linha da frente do apoio financeiro que venha a ser disponibilizado pelas instituições financeiras de todo o mundo, o FMI fez saber que está pronto para apoiar de imediato os mercados emergentes.

O principal problema para Angola é a queda nos preços globais do petróleo devido à diminuição na procura global e ao aumento da oferta por parte da Arábia Saudita e de outros países da OPEP, após o colapso das negociações na OPEP+. Para além do mais, isto surge depois de uma queda constante da produção de petróleo angolano nos últimos anos. Este tem sido o principal foco dos investidores internacionais, por isso é positivo ver que a produção de Angola está a estabilizar acima do 1,35 milhões de barris por dia. Ao mesmo tempo, Angola promoveu numerosas reformas apoiadas pelo FMI que reforçaram a capacidade do país de enfrentar os choques externos e continuar a receber financiamento de organizações internacionais. De facto, foram estas reformas que permitiram ao país colocar, em Novembro passado, 3 mil milhões de dólares de eurobonds junto de investidores internacionais, assegurando dessa forma um muito necessário reforço das reservas do Banco Central.

Isto é especialmente importante porque a queda no preço do petróleo, neste momento muito abaixo dos estimados 55 dólares por barril em 2020, tem um considerável impacto negativo na balança de pagamentos e nas receitas fiscais, embora estas últimas estejam a ser ajudadas pela função de estabilizador automático que a taxa de câmbio flexível representa.

Convém, contudo, termos presente que o preço do petróleo teria de se manter nos níveis actuais até ao final do ano para que o pior cenário se concretize. E este não pode ser o pressuposto de partida, porque significaria que os dirigentes políticos de todo o mundo teriam falhado na reacção à pandemia do coronavírus, arriscando uma depressão económica de grande escala. Portanto, devemos olhar para o lado positivo, na expectativa de que os bancos centrais do G20, os ministérios das Finanças e, acima de tudo, as autoridades de saúde continuem a fazer o máximo para nos livrar deste problema, incluindo programas de testes nacionais de rastreio do coronavírus.

Enquanto isso, o FMI, o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento têm todos os motivos para apoiar Angola com ajuda adicional, se necessário, sob forma de novas facilidades de empréstimo ou através da antecipação de financiamento dos programas de empréstimo existentes. Isto permitirá que as autoridades continuem a manter-se focadas nos desafios de longo prazo, designadamente na diversificação da economia, tornando novos empreendimentos no sector petrolífero mais atrativos aos investidores, combatendo a corrupção para melhorar a posição de Angola em indicadores como o índice Doing Business do Banco Mundial e garantindo o continuado acesso aos fluxos de capital do sector privado.

* Economista Chefe da Gemcorp Capital LLP - Jornal de Angola