Covid-19 trava "turismo médico" das elites africanas


As elites africanas sempre viajaram para o estrangeiro para tratamento médico. Com a Covid-19, muitos voos foram suspensos e as elites são obrigadas a recorrer aos hospitais locais, muitos deles em "estado crónico".

uhammadu Buhari, o atual Presidente da Nigéria, e Robert Mugabe, ex-Presidente do Zimbabué, são dois dos nomes mais conhecidos na lista de líderes africanos que aderiram ao turismo médico nos últimos anos. Com a propagação da pandemia de Covid-19, o luxo de voar para o estrangeiro deixou de ser uma opção.

Para proteger os frágeis sistemas de saúde, governos de todo o continente fecharam fronteiras e suspenderam o tráfego aéreo. Mais de 30 dos 57 aeroportos internacionais de África cancelaram ou limitaram fortemente os voos, segundo o Departamento de Estado norte-americano.

Por estes dias, apenas alguns aviões sobrevoam o continente africano, sendo a maioria voos domésticos.

Cuidados médicos não são para todos

Mais de metade dos africanos não consegue ter acesso aos cuidados médicos necessários pelo menos uma vez por ano, de acordo com um inquérito realizado recentemente pela rede de investigação pan-africana Afrobarómetro. Quatro em cada dez doentes enfrenta longas esperas ou nunca recebe cuidados médicos e uma em cada oito pessoas tem de pagar subornos para obter tratamento, revela o mesmo estudo.

Segundo o Afrobarómetro, os africanos identificam a saúde como o segundo problema nacional que os governos deveriam abordar. As despesas com os cuidados de saúde em África representam cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de metade da média mundial.

Vários especialistas têm alertado que muitos países não terão capacidade de resposta se o coronavírus se continuar a propagar.

Em média, a Etiópia tinha apenas três camas hospitalares para 10.000 pessoas em 2015, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). A República Centro-Africana só tem três ventiladores no total e do Zimbabué chegam relatos de médicos que têm feito cirurgias sem luvas.

No entanto, como a elite africana está a ser obrigada a ficar em casa, há esperança de que os mais ricos comecem a gastar mais dinheiro em instalações médicas locais.

Pouco dinheiro para cuidados de saúde na Nigéria

Na Nigéria, cerca de 41% dos inquiridos refere dificuldades na obtenção de cuidados médicos, de acordo com o Afrobarómetro. Algo que não surpreende, tendo em conta os poucos gastos do Governo em cuidados de saúde nos últimos anos.

Em 2001, chefes de Governo africanos reuniram-se em Abuja, na Nigéria, e concordaram que pelo menos 15% do orçamento nacional de cada país deveria ser canalizado para o setor da saúde.

No entanto, a realidade é muito diferente na Nigéria e em muitos outros países africanos.

"De facto, nos últimos três anos, tem oscilado em torno dos 3,9% [a fatia destinada ao setor da saúde na Nigéria]. Portanto, muito longe de onde deveríamos estar", afirma Osama Enabulele, antigo presidente da Associação Médica Nigeriana.

Cerca de 60% dos nigerianos procuram tratamento médico em clínicas privadas e não em hospitais públicos.

Face à pandemia do novo coronavírus, o Governo e os doadores privados têm envidado esforços para melhorar a situação. Inicialmente, o país contava apenas com cinco centros de testes - quatro públicos e um privado. Agora já são nove.

Investidores externos também estão a ajudar no fornecimento de equipamento de proteção, kits de testes e ventiladores, afirma Osama Enabulele. "Temos vindo a perder anualmente cerca de 2 mil milhões de dólares [915 milhões de euros] por causa do turismo médico e isso, obviamente, não ajuda a aumentar as atividades, os programas e os projetos na área da saúde no nosso país", destaca.

O antigo presidente da Associação Médica Nigeriana vê na proibição de viagens decretada por causa da Covid-19 uma oportunidade. "Vejo esta experiência como algo que fará com que as elites, especialmente os mais ricos, se comprometam mais com o investimento no setor da saúde", diz.

Elite do Zimbabué faz doações

Postos médicos paralisados, escassez de medicamentos básicos, falta de água, filas de espera nos hospitais e médicos em greve. "O sistema de saúde do Zimbabué já estava em mau estado... e depois veio a Covid-19", diz Blessing Gwanyira, da organização não-governamental Citizens Health Watch, com sede em Harare.

A pandemia só veio agravar a crise nos cuidados de saúde que se arrasta há anos no Zimbabué. Atualmente há 23 casos confirmados do novo coronavírus, segundo os números mais recentes do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana (CDC África), e apenas um centro de testes em todo o país, no Hospital Wilkins, em Harare.

Recentemente, o Governo desbloqueou 4.000 vagas para profissionais de saúde. "Ainda há enfermeiros que não vão trabalhar porque não têm vestuário de proteção", conta Blessing Gwanyira. "Isso já era um problema antes do surto de Covid-19. Não tinham água, nem álcool ou cotonetes", exemplifica.

Agora, os mais ricos estão a intervir de forma diferente para ajudar o sistema de saúde. O magnata das telecomunicações Strive Masiyiwa doou 45 ventiladores a hospitais públicos. E a Sakunda Holdings, uma das principais empresas de combustíveis, está a participar na remodelação e modernização de dois hospitais em Harare.

No entanto, Gwanyira está preocupada com o facto de estes hospitais só serem acessíveis a quem tem dinheiro para pagar o tratamento.

Ajudas restringidas

Embora haja esperança de que os investimentos no sistema de saúde aumentem porque as elites estão impedidas de viajar, as medidas contra a propagação da Covid-19 também têm tido implicações adversas.

As restrições de viagem tiveram um efeito colateral preocupante: as organizações de ajuda humanitária estão a lutar para manter os fornecimentos e o pessoal, numa região onde há milhões de pessoas que dependem de ajudas externas para os cuidados básicos.

"As restrições de viagem impostas por muitos governos comprometem a capacidade de levarmos o nosso pessoal e a nossa ajuda humanitária onde são necessários", afirma Patrick Youssef, o novo diretor regional para África do Comité Internacional da Cruz Vermelha.

Algumas organizações, incluindo a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), conseguiram garantir a entrada do seu pessoal em alguns locais antes do encerramento das fronteiras e ainda têm meios para manter as suas instalações em funcionamento durante as próximas semanas, porque os governos têm mantido as fronteiras abertas à ajuda humanitária.

DW