Angolano é a 1.ª vítima mortal da Covid-19 no sistema escolar de Washington


O antigo combatente angolano Zoao Makumbi, de 75 anos, e psicólogo numa escola dos Estados Unidos, foi a primeira vítima mortal da covid-19 do sistema escolar público na cidade de Washington. Zoao Makumbi foi internado este mês no Hospital Comunitário dos Médicos no condado de Prince George, na capital dos Estados Unidos, e morreu na quinta-feira, disse a família, citada pelo jornal Washington Post.

Um porta-voz das escolas públicas da capital norte-americana confirmou hoje que o psicólogo foi o primeiro funcionário que morreu por complicações associadas à covid-19.

Nascido no Congo, filho de refugiados angolanos, estudou Psicologia e ensinou outros refugiados angolanos do ensino secundário no mesmo país.

Juntamente com o tio Sebastian Pinto, Zoao Makumbi foi “combatente da liberdade” na década de 1970, na luta pela independência de Angola, à data uma colónia portuguesa.

Há vários anos que o psicólogo dizia à família que se ia reformar, mas a filha mais velha, Florie Matondo, não acreditava, porque “o trabalho era demasiado importante” no seu “emprego de sonho”, escreve o jornal Washington Post.

O caminho de Zoao Makumbi, antes de se tornar psicólogo escolar, percorreu cinco décadas e dois continentes.

Zoao Makumbi foi psicólogo escolar durante 25 anos e terminou a carreira na Escola Básica Houston.

"Ele amava tanto o seu trabalho, acho que teria trabalhado até aos 80 e 90 anos", disse Florie Matondo, acrescentando que o comportamento era o tema de estudo mais interessante para o pai, que dizia que “os seres humanos são as coisas mais complicadas”.

Sebastian Pinto descreveu que Makumbi tornou-se “num dos principais oficiais da educação angolana no Congo”, que acolhia muitos refugiados do país lusófono.

Tornado chefe de gabinete de uma fábrica norte-americana no Congo, Makumbi apoiava crianças a conseguirem bolsas escolares ou pagava, com o seu salário, as propinas de outros alunos.

Zoao Makumbi mudou-se para o Michigan, nos EUA, em 1983. Quando a fábrica em que trabalhava fechou, o angolano “perseguiu o sonho de se tornar psicólogo” e fez o doutoramento na Universidade de Howard, afirmou a filha.

Sebastian Pinto acrescentou que o sobrinho “adorava pessoas e adorava educar”, porque “sentia que as pessoas são iguais em todo o lado”.

Os colegas de Makumbi recordam-no como “gentil, muito informado e opinativo”, e uma pessoa que gostava de “debater tudo”, desde política educacional ou relações internacionais às “loucuras dos exames padronizados”.

Colega de escritório de Makumbi durante seis anos, o assistente social Darryl Webster disse que o angolano acreditava no potencial de qualquer aluno.

Segundo o assistente social, Zoao Makumbi revia-se em muitas das crianças negras carenciadas com quem trabalhava e acreditava que era sua missão ajudá-las a ter uma educação de alta qualidade.

Para Darryl Webster, as avaliações psicológicas que Makumbi realizava aos alunos eram “mais longas e mais completas” do que de qualquer outro psicólogo que conhecia, e a forma como analisava as avaliações para os pais dos alunos era “poesia”.

Os dois levavam o carro e visitavam a casa de um aluno se não conseguissem entrar em contacto com os pais.

Webster recordou uma situação particular em que Makumbi deu um teste a um aluno que estava frustrado por não conseguir acertar nenhuma resposta.

O psicólogo tocou na cabeça do aluno e repetiu “Tu consegues, eu acredito em ti”, sugerindo que fosse buscar um copo de água.

Depois de voltar e dizer que estava preparado, o aluno completou o teste e saiu. Quando Webster perguntou ao psicólogo como foi o teste, Makumbi sorriu e afirmou: “Aquele rapaz é um génio”.

Lusa