Angola, Bruce Lee e o fator Dino


Um passaporte falso com a assinatura do mestre das artes marciais, Bruce Lee, mostra que a disputa entre Isabel dos Santos e o Governo de Angola é uma luta ainda com muitos golpes por dar. E ainda sobra a incógnita relativa ao general Dino.

As dúvidas dissiparam-se por completo. Já não há margem para qualquer possibilidade de entendimento entre o Estado angolano e Isabel dos Santos. O episódio do passaporte assinado por Bruce Lee, os comunicados da empresária e a réplica da Procuradoria-Geral da República (PGR) de Angola são provas de que as duas partes atingiram o ponto de rutura.

A PGR subiu mesmo a parada e reclama agora cinco mil milhões de dólares de Isabel dos Santos, quando a 30 de dezembro de 2019, dia em que anunciou o arresto dos bens e participações sociais da empresária, se referia a mil milhões de dólares. Angola aperta o cerco judicial a Isabel dos Santos, com o apoio de Portugal, e esta, em resposta, opta por tentar destruir a credibilidade e os argumentos legais de quem a acusa. Neste particular, o passaporte falso, assinado por Bruce Lee, é uma peça relevante para a construção dessa narrativa.


Enquanto esta dúvida se dissipou há uma outra que se avoluma, materializada na possibilidade de o general Leopoldino Fragoso do Nascimento (Dino) se estar a aproximar do atual Presidente da República, João Lourenço. O militar, um indefetível de José Eduardo dos Santos e sócio de Isabel dos Santos na Unitel, é também dono da TV Zimbo, tendo sido sinalizado que esta estação de televisão se tem retraído na emissão de programas críticos do Governo de Angola.

O site Club K enumera exemplos desta conduta, um deles o afastamento do apresentador Dog Murras do programa “Fala Angola” e faz notar que o general Dino terá deixado de ir a Barcelona visitar José Eduardo dos Santos, embora a pandemia também possa ter forçado esta opção.


Este eventual distanciamento é relevante visto que pode indiciar um isolamento cada vez maior da família dos Santos. Dino, a par dos generais Kopelipa e José Maria, integra a curta lista dos fiéis a Eduardo dos Santos, pelo que uma mudança de comportamento fragiliza uma família cada vez mais encostada às cordas – Isabel dos Santos pressionada pela justiça, Tchizé dos Santos, numa espécie de autoexílio, e José Filomeno dos Santos à espera que o seu julgamento seja retomado.

Isabel dos Santos, que se mostra empenhada em defender a tese de que é vítima de uma perseguição, tenta quebrar o elo de confiança entre as autoridades judiciais angolana e portuguesa. “O Estado angolano, através da sua Procuradoria-Geral, usou um passaporte grosseiramente falsificado como supostamente pertencente à Sra. Eng.ª Isabel dos Santos, para fazer decretar o arresto preventivo de bens e empresas, de que ela é legitimamente proprietária”, afirma num comunicado emitido na passada semana.


A PGR angolana reagiu, explicando que o tal passaporte falsificado não foi usado para pedir cooperação judicial a Portugal e que o arresto dos bens foi feito com base em “documentos que atestavam o receio de dissipação do património”. A luta jurídica promete ser dura.


Negócios (Celso Filipe)