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Nandó pode ser a surpresa na sucessão a Lourenço

O facto de Higino Carneiro ter avançado à distância de dois anos com uma candidatura à liderança do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), e, consequentemente, à Presidência da República de Angola, tem intrigado os analistas. Porquê fazê-lo tão cedo, expondo-se a críticas, inclusive do atual chefe de Estado, João Lourenço, que já o colocou fora do baralho dos presidenciáveis?

Há duas interpretações capazes de satisfazerem esta interrogação. A primeira é a de que, através deste posicionamento agressivo, Higino Carneiro ganha margem para ter um lugar de destaque e ser voz influente no comité central do MPLA. O segundo motivo é preventivo. Ao avançar para a liderança do partido, o general coloca-se a cobro de qualquer putativa diligência judicial que pudesse estar a ser preparada pela Procuradoria-Geral da República. Ou seja, um processo contra o general seria entendido como uma encomenda do Palácio da Cidade Alta feita com motivações políticas.

Higino Carneiro preveniu o seu futuro e forçou também João Lourenço a ser reativo. O atual Presidente da República, na passada semana, em entrevista à CNN Portugal, reiterou o que já tinha dito à TPA, defendendo que o futuro líder do MPLA deve ser um “jovem” e “preparado”. E quem encaixa neste perfil? É Manuel Homem, atual ministro do Interior, que sendo jovem terá enormes dificuldades em ser aceite pelos “mais velhos” do partido. Numa sociedade onde a idade tem um peso determinante, os “mais velhos” são uma espécie de farol que guiam os jovens e não o contrário, o que coloca Manuel Homem numa situação subalterna.

Neste quadro de duas candidaturas concorrentes à presidência do MPLA pode surgir uma terceira via que seja capaz de fazer a ponte entre as duas partes, isto é, Higino Carneiro e João Lourenço. E é aqui que emerge a forte possibilidade de Fernando Piedade dos Santos (Nandó) se tornará um candidato consensual à liderança do partido.

Nandó, que atualmente tem 72 anos, já foi tudo no Governo de Angola. Vice-ministro do Interior, tendo acumulado este cargo com o de chefe dos Serviços de Informação, ministro do Interior, primeiro-ministro, vice-presidente da República e presidente da Assembleia Nacional. Um percurso iniciado em 1986 e que se concluiu em 2022, ano em que deixou de liderar o Parlamento do país.

O maior obstáculo à ascensão de Fernando Piedade dos Santos será mesmo o general Francisco Miala, chefe dos poderosos Serviço de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE) e detentor de informação suscetível de destruir a reputação de muitas das figuras mais influentes da elite angolana. Em 2006, Miala foi detido e afastado das funções de diretor-geral dos Serviços de Inteligência Externa (SIE) e em 2007 condenado a quatro anos de prisão pela crime de insubordinação. Neste período, Nandó era primeiro-ministro, sendo por isso a segunda figura do regime, atrás de José Eduardo dos Santos, razão que justifica uma animosidade recíproca.

Miala voltou a liderar os serviços secretos, em 2018, por nomeação de João Lourenço, sendo uma das duas figuras que mais influencia o Presidente da República, superando mesmo Edeltrudes Costa, ministro e diretor do gabinete do Presidente da República. A outra personalidade que Lourenço ainda escuta, neste caso em matérias políticas e económicas, é Carlos Feijó. Aliás, o jurista, que em 2010 foi ministro de Estado com a pasta da coordenação política e responsável pela equipa económica do Governo, pode intrometer-se nesta corrida presidencial caso as outras alternativas sejam incapazes de reunir um consenso satisfatório junto do MPLA.

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