As autoridades de transição da Guiné-Bissau classificaram, esta Segunda-feira, de “incoerência” e “fachada democrática” as declarações dos chefes de Estado de Cabo Verde e Angola sobre a crise política guineense na cimeira da União Africana.
O Conselho Nacional de Transição (CNT) reagiu, em comunicado lido pelo porta-voz Fernando Vaz e transmitido pela imprensa local, às posições assumidas pelos Presidentes de Cabo Verde, José Maria Neves, e de Angola, João Lourenço, durante o fim-de-semana, em Adis Abeba, na Etiópia.
Na 39.ª Cimeira da União Africana, organização que suspendeu a Guiné-Bissau desde o golpe militar de Novembro de 2025, o chefe de Estado angolano condenou as mudanças inconstitucionais de governos no espaço da organização, posição corroborada pelo chefe de Estado de Cabo Verde.
As autoridades de Bissau reagiram, esta Segunda-feira, ao posicionamento dos dois líderes africanos, referindo-se à “postura de determinados chefes de Estado que, sob a capa de uma falsa diplomacia, tentam dar lições de moral e democracia à Guiné-Bissau enquanto as suas próprias casas padecem de muitos e outros males”.
No comunicado lido por Fernando Vaz, Bissau refere-se “a memória curta” e a “incoerência” do Presidente de Cabo Verde, acrescentando que “tenta ressurgir com um discurso de preocupação pedagógica e sofrendo uma amnésia selectiva, para legitimar a sua interferência externa e a percepção de hipocrisia nas relações diplomáticas regionais”.
Para as autoridades de transição guineenses, José Maria Neves, esquece-se que “a certidão de nascimento de Cabo Verde foi escrita com sangue derramado nas matas da Guiné-Bissau”.
“A Guiné-Bissau não esquece quem lhe voltou as costas num momento crítico. Quem opta pela omissão estratégica não tem autoridade moral para vir depois tentar ditar regras de conduta. A soberania da Guiné-Bissau não é um joguete para exercícios de retórica em fóruns internacionais”, acrescentou.
Para Bissau, “quando Neves se cala com as ofensas de Xanana Gusmão”, que considerou a Guiné-Bissau “um Estado falhado”, e com as lições de moral de João Lourenço, “valida uma hierarquia hipócrita da CPLP”, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, da qual os três Estados são membros.
O comunicado de Bissau aponta a seguir o que considera os “dois paradoxos”, o golpe de urnas e o golpe de armas, do Presidente de Angola, João Lourenço.
“O Presidente angolano esquece-se, por conveniência, que eleições fraudulentas e processos viciados constituem por si só golpes constitucionais. Em Angola, o mundo assistiu a processos eleitorais onde a transparência foi sacrificada no altar da manutenção do poder”, referiu.
Para o poder instalado em Bissau, o que ocorreu em Angola foi um golpe de Estado “feito de urnas manipuladas, esse mais pernicioso que o militar, pois é um golpe sem rosto, silencia a oposição, amordaça as instituições e mantém uma fachada democrática para consumo externo”.
“Quem governa sob a sombra da fraude não pode apontar o dedo a crises de legitimidade alheias. A Guiné-Bissau exige respeito. Antes de olharem para Bissau, estes líderes olhem para os seus próprios problemas internos”, prossegue o comunicado.
Para as autoridades guineenses, “Cabo Verde deve preocupar-se em resolver as suas crescentes tensões sociais e o desgaste das suas próprias instituições” e “Angola deve primeiro realizar eleições que não suscitem dúvidas globais sobre a sua veracidade”.
“Ninguém pode dar lições de democracia, quando usa a própria democracia como máscara para o autoritarismo”, acrescenta, concluindo que “a Guiné-Bissau resolverá os seus problemas sem a ingerência de quem confunda amizade histórica com vassalagem política”.








