O financiamento da agricultura em Angola continua muito aquém das necessidades do sector, com a banca comercial a disponibilizar apenas 350 milhões de dólares em crédito, quando o país necessita de cerca de 3 mil milhões de dólares para responder à procura de investimento agrícola. O desfasamento, que representa pouco mais de 10% das necessidades estimadas, foi destacado durante o painel dedicado ao investimento da banca na agricultura, que reuniu representantes de instituições financeiras públicas e privadas no Conselho Consultivo do Ministério da Agricultura e Floresta realizado na última quinta-feira na ENAPP-EP, em Luanda.
Suely Barros, representante do Banco KEVE, atribuiu as dificuldades de acesso ao crédito à própria natureza da actividade agrícola, que exige “financiamentos de maturidade longa, contrastando com os recursos de curto prazo que predominam na estrutura de captação dos bancos”. Acrescentou que muitos produtores apresentam fragilidades estruturais, como ausência de contabilidade organizada, estudos de viabilidade inconsistentes e planos de negócio pouco realistas, frequentemente elaborados sem apoio técnico especializado. Outro constrangimento por ela apontado foi a falta de legalização das propriedades, “que limita a apresentação de garantias reais”, afirmou, bem como a quase inexistência de seguros agrícolas acessíveis, o que deixa produtores e bancos excessivamente expostos ao risco.
Na mesma linha, José Carlos Costa, responsável pelo agronegócio no Banco de Fomento Angola (BFA), sublinhou que a incapacidade de prestação de garantias adequadas e as dificuldades na sua execução afastam a banca comercial do sector. Ainda assim, reconheceu que há uma mudança de paradigma em curso, com os bancos a assumirem maior exposição ao risco agrícola. No caso do BFA, revelou que 44% da carteira do Aviso 10 em stock está alocada ao sector agropecuário, percentagem que sobe para 80% quando incluída a agroindústria. O Aviso 10, instrumento do Banco Nacional de Angola, estabelece taxas bonificadas até 10% para crédito de curto prazo e até 7,5% para financiamentos de médio e longo prazo dirigidos ao sector produtivo.
Yolanda Almeida, em representação do Banco BIC, destacou que o risco elevado da agricultura, aliado à necessidade de investimentos avultados, impõe critérios rigorosos de avaliação. Em 2025, o banco analisou pedidos de financiamento no valor de 108 mil milhões de kwanzas, dos quais aprovou 16 mil milhões. Para o sector agrícola, foram aprovados apenas mil milhões de kwanzas, ilustrando a selectividade do processo. Yolanda Almeida admitiu que “o banco estuda a criação de novas linhas de financiamento fora do enquadramento do Aviso 10, de modo a abranger áreas não cobertas, como a logística, e assegurar maior rentabilidade às operações”.
Por seu turno, Bonifácio Cessa, representante do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), avançou que a sua instituição financiou, desde 2006, cerca de 3.000 operações, sendo aproximadamente 70% da carteira composta por projectos do sector agrário, equivalentes a cerca de 1.600 operações. Em termos de valor financiado, a agricultura representa 30% da carteira, apesar de responder por 60% da geração de emprego. Contudo, “é também o sector com menor taxa de reembolso”, asseverou, evidenciando o elevado nível de risco. O responsável defendeu a necessidade de abandonar o modelo clássico de financiamento e adoptar políticas complementares, como seguros agrícolas eficazes, subvenção de factores críticos de produção, políticas de preços e mecanismos de compra antecipada que reduzam a exposição ao risco.
Adão Matari, do Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrário (FADA), revelou que a instituição financiou 58 mil milhões de kwanzas entre 2020 e 2025, dos quais 21 mil milhões apenas em 2025, abrangendo mais de 1.300 projectos nas áreas da agricultura e pecuária. O fundo dispõe de oito linhas de financiamento, incluindo produtos especiais para culturas como café, mel e algodão, além de linhas destinadas à suinicultura, caprinocultura, avicultura e aquisição de equipamentos agrícolas. Matari foi apologista da partilha de risco entre actores públicos e privados como caminho para ampliar o financiamento e reduzir a pressão sobre as carteiras de crédito.
Apesar dos avanços registados, os intervenientes foram unânimes em reconhecer que o financiamento disponível ainda está longe de responder às necessidades do sector, sobretudo por conta do elevado risco, incumprimento e falta de garantias:
“A agricultura continua a ser estratégica para a segurança alimentar e a substituição de importações, mas enfrenta desafios estruturais que ultrapassam a simples disponibilização de crédito”, advertiram os representantes bancários, numa altura em que a banca nacional registou lucros agregados na ordem de 1,06 bilião de kwanzas em 2025.
Assim, sem reformas institucionais, melhoria no sistema de garantias, reforço do seguro agrícola e maior capacitação técnica dos produtores, a banca poderá continuar a operar num ambiente de risco elevado, limitando a expansão do investimento necessário para transformar o potencial agrícola do país em resultados económicos sustentáveis.
Revista Outside







