Decorreu durante o fim-de-semana, a 39.ª Cimeira da União Africana, em Adis Abeba. Em cima da mesa, a prioridade foi para as mudanças climáticas, principal capítulo em cada caderno de encargos, para cada grande investimento no continente. Mas os conflitos também ocuparam parte significativa da agenda, do Sael ao Sudão, da Somalilândia à República Democrática do Congo (RDC), onde “o Ruanda” continua a dominar no Leste, apesar desta “paz” ser uma das sete bandeiras do Presidente (PR) Trump.
Neste particular, vale a pena referir que apesar dos Acordos de Washington para a Paz e Prosperidade, de junho, e ratificados em dezembro, entre RDC e Ruanda, os rebeldes do M23 continuam a ocupar território, no Leste do país e a explorar minas, com recurso a mão-de-obra infantil, à Blood Diamond, mas sem diamantes. O níquel agora vai todo para os telemóveis e carros eléctricos. Assinalar também, que já em todos os fóruns desta dimensão, a denúncia sobre o principal beneficiário desta batota, ser o próprio PR do Ruanda, Paul Kagame, não é novidade!
O assunto vai passar dos relatórios das Nações Unidas (ONU), UNICEF e outras organizações internacionais, para a abertura dos telejornais, pelas provas evidentes que começam a sair sobre “coltan de sangue” e exploração de mão-de-obra infantil. Aquelas condições que vemos nos filmes, mais o trabalho subterrâneo, sem escoras e que não se vê. E onde não há imagem, não há notícia! Mas será desta, e porquê?
Porque a importância que Angola e o Corredor do Lobito têm para o “garimpeiro Trump”, é prioritária para a sua gula. Esta é a África que lhe convém e uma Angola enquanto ponto de projecção de força para o interior, permitirá a um egoísta eliminar outro.
Especulo sobre o que Trump poderá fazer para desmascarar Kagame, e assumir-se como novo “Peace Lord com benefícios”. Tudo, absolutamente tudo, sobretudo agora, cada vez mais encurralado. Mais a importância atlântica deste lusófono de peso, confirmam aliás, tudo o que Nick Checker disse e reportámos em “África, um ‘hemisfério de transição’ para Trump!” sobre a importância de Angola, para a estratégia americana em África.
A Cimeira UA não abordou, no debate “RDC”, as especificidades realçadas aqui, talvez por se sentir impotente e até envergonhada, por um assunto africano, ultrapassar os africanos e confirmar as lógicas invertidas dos conflitos. Os mesmos relatórios onusianos, também registam, quanto maior é a instabilidade no Leste da RDC, maiores são os fluxos de coltan, ouro, estanho e tungsténio a tomarem a direcção da Europa, Estados Unidos e China. Ganham todos, para quê incomodar?
www.maghreb-machrek.pt
Raúl M. Braga Pires (Politólogo arabista) – In Diário de Notícias








