O déjà-vu cubano deixou de ser sensação para se converter na pior realidade possível. As medidas draconianas anunciadas pelo Governo de Havana para combater a grave crise energética, que se agravou para níveis históricos com a ausência do petróleo venezuelano e o bloqueio dos Estados Unidos da América (EUA) ao crude mexicano, representam algo muito semelhante ao regresso à tragédia social e económica que se seguiu à queda do bloco soviético, que provocou o pavoroso Período Especial dos anos 90, até à chegada salvadora de Hugo Chávez.
A sobrevivência num cenário de escassez extrema foi, em tempos, imortalizada pelos camellos (autocarros alongados com duas bossas), os bistecs de pele de toranja ou as pizas sem sabor adornadas com queijo derretido, que na verdade era látex dos preservativos. Os milhares de histórias daqueles tempos, quando quase tudo valia para “resolver”, marcaram gerações de cubanos, como se fosse um inferno a que não era possível regressar.
Cuba perdeu, após a queda de Nicolás Maduro, em janeiro, o petróleo quase gratuito enviado da Venezuela, que durante um quarto de século manteve à tona o seu fracassado sistema económico, a troco de apoio na repressão de opositores, algo em que os cubanos têm experiência. No ano passado, Havana recebeu contributos do México, cujo Governo se declarou aliado da revolução cubana, mas as ameaças de Washington também conseguiram travar a entrega do crude mexicano à ilha.
As contas não batem certo. Cuba necessita de 150 mil barris de petróleo por dia para manter o seu enferrujado sistema elétrico e a sua economia. Só produz 40 mil por conta própria. O chavismo preenchia esse vazio com mais de 100 mil barris por dia, que o Executivo de Havana aproveitava para revender no mar alto e, assim, conseguir divisas, tão necessárias para uma economia famélica e dependente de remessas, do trabalho de escravos modernos dos médicos cubanos em missões internacionais, e do turismo.
Gasolina difícil, gasóleo inacessível
A crise venezuelana reduziu, ano após anos, o petróleo semigratuito, até este ser suprimido pelo rapto de Maduro e pelos pactos entre Washington e o chavismo reciclado, chefiado pela Presidente interina Delcy Rodríguez. A solidariedade ideológica mexicana compensou esse tremendo buraco parcialmente, durante alguns meses, com doze mil barris por dia. Agora, também eles ficam em causa, fruto do embargo imposto por Donald Trump. Moscovo também ajudou durante uma temporada, mas quer evitar problemas com o Presidente dos EUA.
Qual é, então, o plano do castrismo para combater o xeque petrolífero de Washington? Um novo paquetazo socioeconómico que volta a castigar o cidadão comum, para salvar um regime tão envelhecido como os seus generais da Sierra Maestra. Só será permitido comprar gasolina com dólares (e não com o moeda nacional, o peso cubano), através de uma plataforma com limites individuais; já o gasóleo, nem com a moeda dos EUA.
As ruas de Havana esvaziaram-se imediatamente. O transporte público também desapareceu, como nos piores tempos refletidos na sátira social de “Lista de Espera”, filme sobre um terminal rodoviário onde os autocarros nunca chegavam, para desespero geral. O povo acabou por fazer daquela estação uma pequena aldeia, onde passou a viver. Tal era a fantasia do cineasta Juan Carlos Tabío, que com tanto sarcasmo resumiu o Período Especial de Fidel Castro.
O calendário escolar também vai ser encurtado, como aconteceu durante a pandemia. Parte das atividades laborais será suspensa, para reduzir o consumo energético. Na função pública trabalhar-se-á apenas quatro dias por semana.
As medidas avançadas golpearão duramente um país em crise sistémica, que sofre apagões de até 48 horas no interior e de 12 horas na capital. A inflação disparou, tal como o índice de pobreza, o que leva a ilha ao tal Período Especial 2.0, tão temido pela população. Tanto assim é que na rua se fala de colapso, palavra proibida pelo regime, que o embaixador dos EUA em Cuba, Mike Hammer, confirmou após uma volta pelo interior do país, onde se encontrou com líderes sociais e cidadãos comuns. Os atos de repúdio do Governo cubano não impressionam o diplomata.
As medidas do Presidente Miguel Díaz-Canel visam, sobretudo, salvar o turismo, joia da coroa castrista em apuros. Mas “a coisa” não avança, como se diz em Cuba. O chamado “plano diretor” já levou ao encerramento de vários hotéis em Varadero e na costa norte, com a consequente relocalização de turistas para outros estabelecimentos hoteleiros. Duplo prejuízo para o sector da economia que era estrela. No ano 2025, a ilha recebeu apenas 1,8 milhões de turistas — em vez dos cinco milhões de 2018 —, afetada pela crise sistémica e por epidemias de dengue e chicungunha, transmitidos por mosquitos.
Longe vão os tempos de glória, para o que contribui o anúncio que o Governo fez às companhias aéreas internacionais: acabou-se o combustível para reabastecer aviões. Durante o Período Especial do século XX, linhas aéreas ultrapassaram os piores momentos de escassez de gasolina com paragens forçadas em países vizinhos.
Ficam por um fio todas as operações aeronáuticas com Cuba. A Air Canada, que transporta milhares de turistas, fez saber que deixa de voar para o país caribenho.
Regime teme repetição dos protestos de 2021
“Nos últimos meses, Cuba passou pela pior situação de sempre. Se perguntar a um cubano onde quer viver, responderá que em qualquer lugar que tenha luz elétrica, trabalho que cubra as suas necessidades, e comida… são coisas básicas que o país não consegue garantir”, explica ao Expresso a influencer Anna Bensi, habanera de 21 anos cujos vídeos virais sobre o quotidiano são seguidos com devoção na ilha e mais além “Como querem que concordemos com um sistema que nos leva à miséria e não nos deixa prosperar?”
Decretado o novo Período Especial, a ditadura cubana dedica-se ao que melhor sabe fazer: repressão e controlo social, para mitigar os efeitos que o pacote social e económico tem para a população. “O pior momento da crise que este país já enfrentou”, descreviam — antes de serem detidos, sexta-feira —, os jovens Kamil Zayas e Ernesto Ricardo Medina, que assustaram o regime com o seu projeto independente 4tico (lê-se “quártico”) e os pequenos editoriais que publicavam em vídeo.
Na nova onda repressora que acompanha as medidas socioeconómicas está muito presente o medo, nas esferas mandantes, de uma repetição do 11 de julho de 2021, quando milhares de cubanos venceram temores de décadas e saíram à rua para reclamar liberdade e uma vida melhor. Desde então, quase dois milhões fugiram da ilha, na maioria jovens.
Expresso







