Apesar do brilho e do glamour que envolvem o diamante, a sul-africana De Beers, líder mundial do sector, continua com dificuldades em encontrar um comprador após quase dois anos no mercado, sendo que, segundo analistas, a venda tem sido travada pela queda dos preços e pelo crescente apelo das pedras sintéticas.
O vendedor (o gigante mineiro britânico Anglo American advertiu, na passada quinta-feira, que a famosa empresa diamantífera, fundada na África do Sul em 1888 pelo colono britânico Cecil Rhodes, poderá voltar a registar perdas em 2025.
Em 2024, a De Beers registou perdas de 2,9 mil milhões de dólares e, em maio desse mesmo ano, a Anglo American, que detém 85% da empresa, anunciou a intenção de vender a diamantífera. Actualmente, a De Beers está avaliada em 5 mil milhões de dólares, segundo dados do grupo.
A venda não é travada apenas pela perda de atractividade de um sector afetado pelo enfraquecimento da procura na China, o segundo maior consumidor de brilhantes depois dos Estados Unidos.
Segundo vários analistas, a operação também se complica com a multiplicação de interessados, entre os quais três países da África Subsaariana e vários fundos soberanos, tornando a transação tanto política como financeira.
O Botsuana, o segundo maior produtor mundial de diamantes, atrás da Rússia, é, sem dúvida, o país que mais claramente manifestou o desejo de adquirir uma participação maioritária de controlo na empresa.
O Botsuana, que detém 15% da De Beers, tentou, de facto, concluir um acordo no final de 2025, sem sucesso.
Angola e Namíbia, dois países vizinhos igualmente produtores de diamantes, também entraram na corrida, tal como vários fundos soberanos estrangeiros e um consórcio liderado pelo antigo diretor executivo da De Beers, Gareth Penny.
Trata-se de uma venda delicada que, se for concretizada, marcará um dos abalos mais significativos na indústria dos diamantes num quarto de século, sintetiza o analista independente do setor, Paul Zimnisky.
“O novo proprietário estará em posição de moldar fundamentalmente o futuro de toda a indústria, para o bem ou para o mal”, afirma à AFP.
O interesse do Botsuana sublinha o sentimento, em Gaborone, de que o país deve gerir o recurso que contribui para cerca de um terço do seu PIB, de modo a captar uma maior fatia da cadeia de valor e a garantir o seu futuro económico.
Mas o Fundo Monetário Internacional advertiu o país maioritariamente desértico de que uma excessiva concentração de recursos públicos no setor dos diamantes poderia aumentar os riscos orçamentais e torná-lo mais vulnerável às flutuações da procura mundial.
Seria “apropriado envolver capital privado, bem como dirigentes com a experiência adequada”, defende, por sua vez, Paul Zimnisky, radicado nos Estados Unidos.
Venda ao desbarato?
Como é habitual neste tipo de transações, a Anglo American não revelou quaisquer detalhes das negociações, limitando-se o seu diretor executivo, Duncan Wanblad, a indicar, na quinta-feira, que a venda da De Beers “está a progredir”.
“A De Beers não é um ativo único e simples: abrange a extração, o marketing e o retalho, e inclui um parceiro governamental”, sublinha à AFP Edahn Golan, analista do setor diamantífero.
“Do ponto de vista do comprador, é um momento bastante interessante. Do ponto de vista do vendedor, há sólidos argumentos para esperar que o mercado recupere e assim obter um melhor preço”, acrescenta.
A procura de diamantes naturais enfraqueceu nos últimos anos, com os compradores mais jovens a gastarem menos em joias tradicionais e a deixarem-se seduzir por diamantes sintéticos produzidos em laboratório, muito mais baratos.
Entretanto, as tarifas alfandegárias dos Estados Unidos e a reconfiguração das rotas comerciais estão a perturbar os fluxos de diamantes em bruto para os principais polos de lapidação e polimento, como a Índia.
Outro sintoma deste período de grande incerteza é o facto de retalhistas e fabricantes deterem os maiores stocks de diamantes lapidados dos últimos anos.
Embora o setor pareça atravessar uma fase de desânimo, o analista Zimnisky considera que a Anglo American não se resignará, ainda assim, a “uma venda ao desbarato”.
“Podem ser pacientes”, concorda Golan. “A minha esperança é que o desfecho (da venda) dê origem a uma empresa que traga prosperidade às comunidades em que opera e que consiga reacender o interesse dos consumidores por diamantes naturais”.







