Trabalhadores da área industrial da Biocom (Companhia de Bioenergia de Angola), no município de Cacuso, província de Malanje, paralisaram as atividades nesta segunda-feira em protesto contra os baixos salários, a falta de progressão na carreira e os maus-tratos praticados pela chefia.
A greve escancara a superexploração da força de trabalho angolana e o papel direto do capital privado brasileiro nesse processo. Publicamos abaixo o relato de um trabalhador da Biocom:
“Hoje 09 de Fevereiro os trabalhadores da Indústria Biocom paralisamos os serviços por vários motivos. A primeira questão que deixou o pessoal muito revoltado é a seguinte.
Semana passada houve um acidente no percurso Biocom Cacuso, o autocarro que levava os colegas bateu sobre um camião. Houve uma morte e três feridos graves, um dos colegas encontra-se em coma no Hospital Regional de Malanje e os colegas questionam porque até agora não foi evacuado para Luanda!
A segunda questão é;
Insatisfação salarial… O salário mínimo aqui é 100.000, mas este dinheiro não tem chegado para suprir as necessidades básicas dos trabalhadores, pois o custo de vida aqui em Angola é altíssima. Temos funcionários com mais de 15 anos sem promoção.
O terceiro ponto é a questão de falta de respeito da parte dos coordenadores, os líderes expatriados aqui não respeitam a mão de obra nacional, prova disso é que somos submetidos a serviços com muitos riscos (Serviços em altura com andaimes danificados, a própria empresa não tem andaimes, muitas vezes dependemos dos andaimes das empresas que prestam serviços na planta); nenhum subsídio.
Hoje por exemplo, enquanto decorria o nosso DDS o colega Candidato a primeiro secretário do Sindicato para Biocom foi humilhado pelo gerente Fabiano em tom alto.
O último ponto é;
As empresas que prestam serviços na Biocom pagam melhor os seus funcionários que a própria Biocom. Isso tem criado um clima de descontentamento.”
Apesar de se apresentar como empresa angolana, a Biocom possui uma estrutura accionista marcada pela presença da construtora brasileira Odebrecht, que detém 40% do capital, ao lado da Sonangol e do grupo privado angolano Damer. Trata-se de um dos principais projetos do setor sucroalcooleiro do país, com forte aporte de capital e tecnologia brasileira, incluindo cerca de 100 milhões de dólares investidos apenas em equipamentos agrícolas importados do Brasil.
Enquanto milhões são destinados para garantir produtividade e lucros, os trabalhadores denunciam que há funcionários com 10 a 15 anos de serviço que jamais foram promovidos. Muitos recebem há mais de uma década um salário base em torno de 200 mil kwanzas.
A greve também retoma denúncias antigas de discriminação racial. Desde pelo menos 2017, trabalhadores angolanos da Biocom denunciam a política de valorização exclusiva dos expatriados, sobretudo brasileiros, que concentram os cargos de chefia, recebem salários muito superiores e usufruem de benefícios como alojamento e viaturas. Já os trabalhadores nacionais permanecem nos postos mais precarizados, submetidos a jornadas extenuantes e sem acesso a direitos básicos. Dos cerca de 2.100 trabalhadores da Biocom, aproximadamente 1.940 são angolanos.







