Donald Trump recuou e descartou, pela primeira vez, esta quarta-feira, em Davos, recorrer à força para anexar a Gronelândia, mas exigiu “negociações imediatas” sobre a aquisição do território pelos Estados Unidos. Para Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, este recuo deve-se à resposta firme dos Estados europeus.
Donald Trump recuou esta quarta-feira, 21 de Janeiro, em Davos, na intenção de recorrer à força para anexar a Gronelândia, mas exigiu “negociações imediatas” com vista à aquisição do território pelos Estados Unidos da América. O presidente norte-americano fez também marcha-atrás na decisão de impor uma taxa alfandegária adicional a oito países europeus, num contexto de crescente tensão transatlântica.
Para Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, este recuo deve-se à resposta firme dos Estados europeus. “O presidente norte-americano compreendeu que as medidas que estava a tomar para conquistar militarmente ou comprar a Gronelândia iam provocar uma reacção muito forte do lado europeu”, afirmou. Segundo o analista, esta foi “possivelmente a primeira vez, desde a eleição do presidente Trump, que vimos os Estados europeus unirem-se de forma significativa”, incluindo com o envio de tropas para a Gronelândia e ameaças de medidas comerciais, bem como a suspensão de acordos com os Estados Unidos.
Álvaro Vasconcelos sublinha que Donald Trump apenas “conhece a linguagem da força na negociação”. Para o antigo responsável do Instituto de Estudos de Segurança, a resposta europeia teve efeitos, mas o problema de fundo mantém-se: “Não significa que Trump não continue a querer dominar a Gronelândia e encontrar uma outra forma para a controlar.”
No discurso em Davos, Donald Trump insistiu que apenas os Estados Unidos têm capacidade para proteger a Gronelândia, evocando o poderio militar norte-americano e exemplos recentes da política externa dos EUA. Ainda assim, garantiu que não avançaria com a aquisição do território “por via da força”.
Álvaro Vasconcelos considera que o presidente norte-americano é “um político brutal”, marcado por “um ego desmedido”, reforçado pela operação na Venezuela. “Ele pensou, a partir da Venezuela, que tudo lhe era permitido no mundo e que podia tratar os aliados da forma como tratou”, referindo-se em particular aos ataques dirigidos ao presidente francês, Emmanuel Macron.
Sobre o projecto de acordo anunciado entre Donald Trump e o secretário-geral da NATO relativo uma presença americana reforçada na Gronelândia, que poderia traduzir-se numa soberania de facto dos Estados Unidos sobre partes do território, Álvaro Vasconcelos ressalva que o documento “não existe” na medida em que não foram ouvidas as partes interessadas. “Evidentemente que isso tudo foi feito sem conversarem com os habitantes da Gronelândia, com as autoridades da Gronelândia, nem com a Dinamarca”,frisou, considerando que se trata de “um acordo que não existe” e que ainda terá de ser negociado. E sublinha, por isso, que a tensão entre a Europa e os Estados Unidos “não desapareceu”.
Questionado sobre a capacidade europeia para endurecer a resposta, nomeadamente no plano económico, Álvaro Vasconcelos foi claro: “Sem dúvida que a Europa, do ponto de vista económico, tem instrumentos poderosíssimos para responder aos Estados Unidos.” Recordou que a União Europeia é o principal mercado das exportações americanas e que medidas comerciais teriam “um enorme impacto”, sobretudo nas grandes empresas tecnológicas norte-americanas.
No entanto, o contexto é particularmente complexo. “A Europa está metida entre dois adversários: tem, por um lado, a Rússia de Putin a atacar na Ucrânia e tem os Estados Unidos a atacarem a Ocidente”, o que exige que a União Europeia tenha uma postura “mais forte politicamente”, capaz de “falar com uma única voz”.
A recusa europeia em aderir ao chamado “Conselho para a Paz”, proposto por Donald Trump, surge como exemplo dessa unidade. França, Alemanha e Reino Unido rejeitaram a iniciativa, mantendo o apoio ao sistema multilateral e às Nações Unidas. “O que Trump quer destruir”, disse Álvaro Vasconcelos, é precisamente a ONU, num projecto que considera “muito mais ambicioso e muito mais destrutivo da ordem internacional”.
Apesar da importância estratégica crescente do Árctico, agravada pelo aquecimento global e pelo degelo, o antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da UE rejeita que a motivação americana seja essencialmente securitária. “Não é por motivos estratégicos, não é por motivos de segurança. É por motivos de ambição imperial”, afirmou, traçando um paralelismo com a política de Vladimir Putin.
“Entrámos num mundo em que o brutalismo imperial regressou, em que a lei da força passou a ser considerada a regra principal das relações entre os Estados”, concluiu, defendendo que a resposta a esta dinâmica exige uma União Europeia unida, com aliados e empenhada no reforço do multilateralismo.
Cristina Soares – In RFI








